FESTIVAL INTERNACIONAL DE MÚSICA DA PÓVOA DE VARZIM – 2009
Hugo Ribeiro
1. “Reminiscências” para Orquestra (2007) 13’31’’
Orquestra Sinfónica da Póvoa de Varzim
direcção
Osvaldo Ferreira
Gonçalo Gato
2. “Derivação” (2008) 09’57’’
piano
Elsa Marques Silva
Fátima Fonte
3. “A Civilização” (2007) 08’56’’
Camerata Senza Misura
soprano
Raquel Camarinha
Ana Seara
4. “Poema, Mensagem” (2008) 11’06’’
Camerata Senza Misura
5. “Le Foncé Ciel de la Nuit Glacée” (2008) 09’48’’
Orquestra Sinfónica da Póvoa de Varzim
direcção
Osvaldo Ferreira
António Pinho Vargas
6 “Movimentos do subsolo – Quarteto de cordas nº 2” – 1º andamento 02’47’’
7 “Movimentos do subsolo – Quarteto de cordas nº 2” – 2º andamento 04’26’’
8 “Movimentos do subsolo – Quarteto de cordas nº 2” – 3º andamento 05’13’’
Quarteto Verazin
TOTAL 66’02’’
“Reminiscências” para Orquestra (2007)
O redescobrimento de Eça de Queirós, por mim injustamente esquecido durante algum tempo, incentivou-me a ler os seus Contos que, de alguma maneira, influenciaram esta peça, sobretudo a sua forma. Estamos, portanto, perante uma peça edificada sobre uma introdução e onze pequenas secções que lhe seguem. Cada uma dessas secções é composta por músicas diferentes e contrastantes retiradas ou inspiradas em antigas peças minhas: se por um lado há momentos em que a fonte é imediatamente reconhecível, por outro a influência é ténue, sendo estas “novas” secções representativas de uma evolução natural levada a cabo pelo meu actual percurso composicional. Todas estas secções estão separadas por um acorde que as interrompe, servindo de gatilho para um novo momento musical. Este acorde, primariamente apresentado na introdução, é disposto simetricamente e contém as 12 notas do total cromático. Em vez de se tornar estático, ele é, até certo ponto, o único objecto musical que se desenvolve (embora pouco) ao longo da peça: em cada aparição vai perdendo notas (não de forma linear) chegando às oitavas de Ré que catapultam a última secção.
Uma última observação vai para a música de Lutoslwaski que me ensina o contraste, a interrupção, o recomeçar narrativo. Em termos metafóricos e evocando uma vez mais o Eça de Queirós inspirador, esta peça é, para mim, o meu livro de contos, as minhas reminiscências (ou memórias), onde ao virar da página se encontram outras personagens, pequenas, mas com uma história diferenciada. (Ou se quisermos, o virar da esquina que sempre nos surpreende com novas paisagens. Ou as estações de rádio que nos fornecem diferentes músicas no tempo de rodar o botão.)
Hugo Ribeiro – Março de 2007
“Derivação” (2008)
É uma peça para piano onde quis explorar a derivação (passo o pleonasmo) como elemento fundamental da construção do discurso musical. O material inicial é, por assim dizer, despojado, quase neutro, mas é na sua variação que reside o seu interesse. Penso que o compor tem muito que ver com a exploração das potencialidades de um determinado material musical, seja ele qual for. Assim, a escolha do momento para instilar novo material musical surge sempre após o esgotar de potencialidades de variação de material anterior. Esse esgotamento cria a tensão necessária para a renovação do discurso. Por esta razão conceptual estar no núcleo da composição, esta peça é também um manifesto de liberdade: liberdade para não haver secções pré-definidas, liberdade para não haver esquemas composicionais apertados, liberdade para fazer uso da intuição no compor.
Gonçalo Gato, Abril de 2008
“A Civilização” (2007)
Esta peça teve como ponto de partida a obra «A cidade e as serras» de Eça de Queirós. Este livro foi escrito depois de um conto preparatório intitulado «A civilização», de onde retirei o nome para a minha peça.
Detive-me especialmente nas passagens em que o humor, nas suas várias formas (pitoresco, jocoso, irónico, etc), assume o papel principal. De entre as muitas retive particularmente as descrições da ida à ópera: esta é vista como um acontecimento social, um pretexto para se mostrarem as melhores roupas, acessórios e maquilhagem (o famoso pó de arroz). A soprano solista assume o seu papel de atracção – deve ter um porte imponente de diva – e emocionar o público com as suas capacidades dramáticas.
Outra situação amplamente descrita por Eça de Queirós diz respeito às «engenhocas» próprias da civilização urbana do séc. XIX, aparelhos por vezes de utilidade duvidosa que se podiam tornar um pesadelo se mal manuseados ou avariados. Se utilizados exaustivamente tinham também a desvantagem de tornar bastante entediante o quotidiano.
“Poema, Mensagem” (2008)
Uma mensagem para todos os professores com quem tive oportunidade de trabalhar, uma mensagem para tudo aquilo que aprendi, uma mensagem por tudo aquilo que farei a partir de agora. O poema da independência, da responsabilidade e do futuro.
Em Poema, Mensagem utilizei harmonias de várias peças de Grisey, como Partiels e Talea. Esta peça é-lhe dedicada, neste ano de 2008 em que se celebram os 10 anos da sua morte.
Tal como um poema é constituída por diversas partes que “rimam” mas também adquirem identidades próprias e, por isso, se distinguem e coabitam em perfeita harmonia, esta peça alterna a figura com o continuum, o rápido fluir dos acontecimentos e o estatismo.
Ana Seara, Abril de 2008
“Le Foncé Ciel de la Nuit Glacée” (2008)
As notas de programa são, ao mesmo tempo, vantajosas e desvantajosas para o compositor. Dão e omitem informações que devem e/ou não devem ser reveladas. Mas constituem um veículo importante para a comunicação entre o público e o compositor. Assim uma obra musical não deverá ser programática para não perder a sua identidade artística. No entanto, a descrição é algo que, intuitivamente, está no imaginário do compositor e do ouvinte, naturalmente. Como a música carece de um vocabulário próprio, ela vai pedindo de empréstimo uma e outra palavra às outras artes e ao quotidiano. A peça então transforma-se e toma forma de uma linguagem abstracta do pensamento e dos sentimentos de quem a compõe, para quem a toca e, em última instância, para quem a ouve.
Num processo introspectivo, individualista e algo doloroso, esta peça é tecida no tempo com o pensamento no frio, na chuva e no gelo que fazem lá fora, atrás daquela janela que olho à noite, vezes sem conta, durante o processo criativo. Facilmente a música me transporta para um frio ainda mais frio e uma chuva ainda mais gelada das noites das terras altas, onde o aquecimento global parece dar os seus primeiros sinais. Parte-se o gelo, deslizam as águas e todo um planeta se transforma… Parte-se a vida, cresce-se, inicia-se uma nova etapa – a vida real.
É nesta dialéctica entre a criação e a vida que surge o discurso de Le Foncé Ciel de Ia Nuit Glacée.
Ana Seara, Abril de 2008
Movimentos do subsolo – Quarteto de cordas nº 2
O subsolo, aparentemente imóvel, tem todavia pequenos movimentos permanentes, quase imperceptíveis e movimentos mais bruscos nas profundidades que provocam enormes consequências à superfície. A metáfora principal desta obra deriva do paralelo possível entre aquilo que se passa nas profundidades terrestres e nas profundezas quase ignotas da mente humana. Nesse sentido esta peça manifesta uma agitação interna e externa que não tem sido muito utilizada nas minhas obras, sobretudo de forma tão sistemática.
De acordo com o meu procedimento habitual esta peça tem uma pequena teoria. O seu elemento principal reside no conceito de gesto musical, na utilização de vários gestos, compostos de figuras características.
Fiz um pequeno catálogo de gestos possíveis que são combinados, repetidos, transformados ou submetidos a transformações e desfigurações graduais. Mas as suas transições são, por vezes bruscas e um desenvolvimento gradual de uma determinada figura/gesto pode ser interrompido por um corte abrupto. Esta sucessão de gestos, figuras e cortes organiza-se, apesar de tudo, em três secções relativamente perceptíveis como tal.
António Pinho Vargas, Junho de 2008


